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Construção de imaginário social nas eleições presidenciais de 2014

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Um sentimento que já vinha de pleitos presidenciais anteriores, ganhou força nas eleições deste ano, sendo, inclusive, abarcado por algumas lideranças do PSDB: a ideia de que os eleitores do PT pensam pouco racionalmente quando votam – num eufemismo não adotado por muitos eleitores de Aécio, que chamaram aqueles, nas redes sociais, literalmente de burros e ignorantes. Os votantes petistas, nessa linha de raciocínio, pautam suas escolhas eleitorais em interesses imediatistas, como a continuidade dos benefícios do Bolsa Família, programa cujos assistidos, por concentrarem-se em sua maioria, nas regiões Norte e Nordeste do País, por metonímia passaram a corresponder a toda população das duas regiões, consideradas, a partir de então, espaços de gente desinformada, para dizer o mínimo.

A adoção de tal discurso por membros do Partido Social Democrata iniciou-se quando Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente e liderança histórica do PSDB, afirmou em entrevista ao portal UOL, que os eleitores do PT eram menos informados e que coincidiam também de serem os mais pobres. O candidato Aécio Neves não abraçou abertamente tal discurso, prometendo, inclusive, ampliar o Bolsa Família, aquele que é visto por muitos eleitores compartilhadores dessa visão, como o responsável por “comprar” os votos dos ignorantes que, com ele, “abrem mão de trabalhar”. Em contrapartida, no entanto, empreendeu um diálogo extremamente raivoso, visível nos debates televisivos, com Dilma Rousseff, deixando nítido o que parecia ser seu desprezo em relação à adversária, calcado na crença de sua superioridade intelectual. Pois não são apenas os eleitores do PSDB que são mais inteligentes que os do PT, mas também o candidato daquele partido em relação à candidata-presidente, Aécio parecia querer dizer com essa postura.

Hoje se sabe, com o fim do segundo turno, que ao adotar tal tática, o PSDB traçou o caminho para o fracasso eleitoral, pois, não apenas dirigiu-se para os já “convertidos”, como afirmou um marqueteiro do partido, como – alguns analistas políticos levantaram a hipótese –, tal postura deslegitimadora não apenas da adversária como também de seus simpatizantes, não levou estes, e também muitos daqueles que se encontravam indecisos, a aderirem às suas, assim consideradas, hostes intelectualizadas, mas, em contrapartida, a engrossassem ainda mais o caldo de apoio petista ao identificaram em si a direção de muitas das críticas do discurso desqualificador PSDBista.

A postura do partido representou a adoção de uma estratégia que depois se mostrou errada e pode ou não corresponder às crenças de seus membros, já o fortalecimento desse tipo de discurso nestas eleições tem origens mais antigas e se quisermos traçar uma genealogia desse tipo de pensamento podemos voltar-nos à própria gênese do pensamento liberal clássico.

Ao formular, no século XVIII, o princípio de publicidade como uso público da razão, em que cada pessoa estava convocada a ser um publicador que fala ao mundo por meio de textos, o filósofo Immanuel Kant deixou explícito também que para participar desta comunhão de auto esclarecimento entre os homens, que posteriormente exigiria a prestação de contas do poder público, o indivíduo deveria ser independente – ou seja, não necessitar vender a sua força de trabalho para sobreviver –, e possuir elevado nível intelectual (saber ler e escrever já era um indicativo), o que, portanto, acabava por limitar essa esfera pública aos proprietários privados. Jurgen Habermas deixa claro que a hipótese social deste modelo liberal de esfera pública é condição sine qua non para a submissão da noção de publicidade ao sistema kantiano.

Por limitadora que seja esta construção e inviável, como a história acabou por comprovar, resquícios de sua formulação teórica sempre vicejaram aqui e acolá; o que o PSDB tentou fazer, ao identificar esse espírito, de mote liberal conservador, em boa parte do seu eleitorado, foi trabalhar em cima dele, criando e fortalecendo o imaginário social de que os eleitores do PT são desinformados, o que levaria seu partido, pensavam, a uma maior legitimação política, porém o que se viu do resultado de tal postura foi apenas o recrudescimento de um discurso, por parte de uma parcela do eleitorado, que, de desqualificador das escolhas alheias, passou para amplamente preconceituoso e criminoso.

Ester Minga

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