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Considerações sobre a função de Agenda Setting dos mass media

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O blog já tratou sobre a teoria da Agenda Setting em três oportunidades anteriores: Rafael Sampaio (@cardososampaio) apresentou os pressupostos fundamentais do agendamento de primeiro nível e as respectivas implicações para a atividade política (clique aqui); e Graça Rossetto (@gracapnr), por sua vez, escreveu dois artigos, no primeiro tratou de novas possibilidades metodológicas, inauguradas com a internet, para o teste do efeito (clique aqui) e, no segundo, de erros recorrentes na compreensão e na operacionalização do conceito de agendamento (clique aqui).

Neste post, vamos tentar trabalhar os aspectos não abordados nos textos anteriores. Mas, antes, vamos recuperar o cenário social que torna possível a existência de tal efeito. Nas sociedades contemporâneas, com as atividades sociais extremamente especializadas e demograficamente grandes, a parcela da realidade com maior importância para a vida política (os atos dos agentes públicos, por exemplo) ocorre distante dos olhos da maioria da população. Não por acaso, este foi o cenário identificado por W. Lippmann desde no início do século XX, quando escreveu Opinião Pública, clássico publicado em 1922 (sobre este livro, leia aqui). Com isso, nas contemporâneas sociedades de massa, torna-se necessário um ator social com o papel de mediação desta realidade: os mass media.

Dito isto, vamos para a teoria da Agenda Setting, que teve seu primeiro impulso em 1972, com a publicação do artigo The Agenda-Seting function of mass media, de Maxwell McCombs & Donald Shaw. A partir deste estudo, desenvolveu-se um modelo teórico-metodológico para testar (e provar repetidas vezes) o poder da mídia de agendar quais temas nós consideraremos mais importantes. Especificamente, o objetivo do estudo de McCombs & Shaw era testar a hipótese de que a mídia, ao fazer a mediação entre a realidade política e as pessoas, estabelece hierarquias, ao empregar suas gramáticas na organização de mensagens noticiosas que disputam agonisticamente a atenção das pessoas. É importante pontuar que esta teoria parte do pressuposto de que os mass media influenciam nossa avaliação da importância dos temas possíveis de serem tratados em uma esfera de visibilidade pública, mas não conduzem nossa opinião sobre estes temas.

Para a verificação empírica da Agenda Setting, são necessárias, basicamente, duas frentes: aplicação de questionário para saber o que as pessoas consideram mais importante; e análise de conteúdo dos mass media para saber o que estes dão mais destaque. Assim, através do primeiro procedimento, pode-se verificar qual é a agenda do público; e, pela análise dos conteúdos midiáticos, qual é a agenda dos mass media.

 

Agenda de segundo nível: a agenda de atributos/predicados

A agenda midiática pode ser composta por qualquer assunto de interesse social, que podemos considerar aqui como objetos. Cada um desses objetos destacados pela agenda da mídia possui numerosos atributos, características e traços que definem a imagem deles. Quando a mídia nos apresenta um objeto, ela também enfatiza algumas características desse objeto, embora isso ocorra em diferentes graus. Estes traços e atributos constituem o chamado segundo nível da Agenda Setting. Temos, então, que no primeiro nível, os media destacam determinados objetos em função de outros; enquanto no segundo nível de agendamento, os mass media destacam determinadas características/atributos dos objetos em função de outros.

O básico da metodologia mantém-se: questionário e análise de conteúdo, mas aumenta o trabalho para aferir com precisão os predicados empregados para caracterizar os objetos, bem como as estratégias de elaboração do questionário. Por exemplo, um estudo coordenado por McCombs durante as eleições espanholas de 1996 perguntou: “imagine que você tem um amigo que não sabe nada sobre os candidatos. O que você diria a ele sobre… (o nome do candidato)?”.

 

Fronteiras da pesquisa

Nas últimas décadas, as fronteiras da pesquisa de Agenda avançaram consideravelmente. Atualmente, o esforço de pesquisa tem se concentrado no aumento e complexificação das séries temporais dos dados analisados; na variação da agenda de atributos de um determinado objeto ao longo do tempo; na possibilidade do público influenciar seus mass media, em circunstâncias específicas; nas relações entre as agendas dos parlamentos e dos governos com a agenda dos media; nas estratégias das mais variadas organizações sociais para agendar os temas que lhes são caros; e na relação entre agendas mídiaticas e a avaliação da capacidade dos políticos eleitos ou pleiteantes; dentre outros.

Além de todas estas frentes, tem acontecido ainda uma reconfiguração do ambiente comunicacional, com o crescimento das chamadas redes digitais. Então, há quem presuma que o poder de agenda dos mass media foi afetado consideravelmente, enquanto há pesquisas que apontam para uma concentração de tráfego nas redes digitais, que acaba por manter o poder de agenda de alguns atores midiáticos.

NOTA: Para a formulação do presente texto, além da leitura da bibliografia básica, foram fundamentais aulas do professor Wilson Gomes (@willgomes) que assisti na Facom-UFBA, tanto na graduação, quanto na pós. Não obstante, erros de entendimento ou incompletudes nos argumentos são de minha exclusiva responsabilidade.

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/samuel.jpg[/author_image] [author_info]Samuel Barros é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA; jornalista pela mesma Universidade; pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Governo Eletrônico e Democracia Digital; membro do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Democracia (CID); e do Grupo de Estudos de Comunicação, Política e Redes Digitais (CP-Redes); tem interesse por internet e política, deliberação online, deliberação midiática, jornalismo e dimensões teóricas e práticas de iniciativas em democracia digital.[/author_info] [/author]

Samuel Barros
Samuel Barros é mestre e doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); jornalista; pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Governo Eletrônico e Democracia Digital (CEADD); membro do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Democracia (CID); tem interesse por internet e política, consultas públicas online, deliberação pública online, democracia digital, deliberação midiática e jornalismo.

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