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Congresso e reforma política na Folha de S. Paulo

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Nas últimas semanas, o jornal Folha de S. Paulo tem publicado editoriais abordando diversas questões da reforma política votada pela Câmara dos Deputados. O editorial “Submissão”, publicado neste domingo, 14 de junho, pode ser encarado como o ápice das críticas dirigidas ao Congresso e às medidas adotadas por parlamentares eleitos para a legislatura iniciada em 2015 – especialmente, por Eduardo Cunha.

Próximo à votação da reforma política na Câmara, a Folha publicou alguns editoriais posicionando-se sobre as propostas existentes. No texto “Regressão democrática”, de 18 de maio, o periódico demonstra preocupação com o teor das alterações que poderiam ser aprovadas, especialmente, com o distritão. Em 20 de maio, no editorial “O impasse da reforma”, o jornal destaca o desentendimento entre Eduardo Cunha e o relator do projeto, Marcelo Castro. A Folha também defende que sejam impedidas coligações nas eleições para deputado e vereador.

Após a votação da reforma, que resultou em poucas alterações, o jornal criticou a condução do processo por Eduardo Cunha, argumentando que os trabalhos da comissão foram atropelados pelo autoritarismo do Presidente da Casa. A Folha coletiviza as críticas, ao afirmar que os políticos brasileiros não têm muitos motivos para fazer coisa melhor da reforma, mas certamente farão coisa pior, caso haja oportunidade.

Nos dias subsequentes, as ações do Congresso Nacional permanecem em pauta, como a proposta da Lei de Responsabilidade das Estatais e a possível redução da maioridade penal. No editorial “Reforma em desacordo”, o jornal menciona as propostas que defende para a reforma política, como o voto distrital misto e a continuação da possibilidade de reeleição. A Folha demonstra preocupação com as medidas aprovadas e com o teor da reforma política.

Nestes editoriais, percebe-se que o jornal endereça suas críticas e sua agenda ao campo político, especificamente, ao Congresso Nacional. Mais que procurar esclarecer o leitor e oferecer uma forma de encarar as questões, a Folha apresenta uma pauta própria, defendendo abertamente certas medidas. No editorial publicado no dia 14, a crítica transcende a postura da Câmara em relação à reforma política, reafirmando também as posições do periódico sobre outros temas, como direitos civis.

Diante de um campo político desgastado, a Folha busca legitimar-se como representante do leitor, cobrando as autoridades e constrangendo a atuação delas. Apresentar as opiniões de forma mais clara pode ser uma estratégia de mercado que passa por fortalecer a identidade do jornal. Por mais que possa não contemplar um público conservador, o periódico reforça a imagem que apregoa, de ser um periódico comprometido com as liberdades individuais e com a democracia. As opiniões, reforçando a imagem cultivada pela Folha, a permitem ocupar um posto específico no campo jornalístico, mantendo (ou desenvolvendo) o vínculo com um certo público e exercendo vigilância sobre os agentes políticos investida de maior legitimidade.

Camila Mont'Alverne
Camila Mont'Alverne é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE).

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