Por uma crítica de mídia mais crítica – e menos apaixonada

Em tempos de crise política e institucional, como as que vivemos no Brasil atualmente, o papel da “mídia” é sempre questionado, tanto em seu caráter moral e ético, quanto do ponto de vista de seus efeitos. Se, por um lado, é possível identificar erros de cobertura, apontar excessos e medir tendências em editoriais, por outro, a paixão que ficou conhecida como FlaxFlu político no Brasil esgarça a crítica de práticas midiáticas a ponto de encaixá-la em qualquer perspectiva ideológica. Por isso, enumero alguns pontos que podem ajudar a qualificar a crítica de mídia no Brasil e elevá-la a um patamar efetivamente crítico (correndo o risco de ser redundante). São eles:

 
Existe a “mídia”? O termo que carrega origens diferentes é tratado no Brasil de forma taxativa e unificada. Isso quer dizer que ao ler uma notícia na Veja, por exemplo, o indivíduo tende a ampliar sua crítica à mídia brasileira. Ora, é realmente possível colocar num mesmo balaio Veja, Istoé, Globo, Folha e Estadão? Não parece plausível compreender que os quatro veículos citados possuem lógicas de funcionamento distintas? Que têm interesses econômicos, políticos e sociais diferentes entre si? A fauna midiática brasileira é bem diversa, com erros, acertos, tiros no pé, barrigadas e golaços em diferentes graus. Enquadrar todos num mesmo arcabouço é perder a perspectiva da crítica que deve ser feita a práticas; é, antes de mais nada, descontextualizar essas práticas e resumi-las, sem procurar compreender as circunstâncias de atuação de cada uma.

 
A mídia tem por obrigação ser crítica, independente de quem esteja no poder. É comum perceber em comentários de Facebook e em posts de blogs políticos a inclinação da aceitação da crítica: se é contra a minha ideologia (independente de qual seja), é golpe. Se é a favor, é um trabalho sério de investigação. Isso ocorre porque – mais uma vez a generalização… – há uma tendência de lembrar apenas da cobertura atual, sem levar em consideração o que já foi feito a respeito de outros governos e de outros momentos políticos. No fim das contas, a democracia precisa de uma mídia/imprensa odiada/antipática (ou, como no livro de Michael Schudson, “Why Democracies Need an Unlovable Press”). Os excessos e os erros, como dito anteriormente, devem ser analisados em perspectiva, não generalizados. Será mesmo, como visto em uma postagem de um blog conhecido, que é possível tirar conclusões definitivas apenas decupando a aparição de determinada figura política em um telejornal? E as outras variáveis, não são levadas em conta? E as outras edições, principalmente as posteriores, não são levadas em consideração? Será que se a mesma situação ocorresse com seu inimigo político a crítica permaneceria?

 
A imprensa é uma indústria. Embora pareça estranho a muitas mentes pensantes, a imprensa no mundo todo responde a uma lógica capitalista, isto é, precisa produzir resultado financeiro. Quase sempre os ditos críticos de mídia tendem a idealizar a mídia e achar que ela deve trabalhar por passe de mágica. Naturalmente, como apontado no ponto anterior, a imprensa é fundamental para o desenvolvimento de uma democracia sadia, independente de seu modelo econômico, mas a sua prática diária é uma linha de produção. O que isso quer dizer? Quer dizer que o trabalho midiático é capaz de errar porque responde a interesses econômicos – impossível negar isso -, mas também porque uma indústria produtiva tem falhas no processo, que podem ser ligados a recursos humanos, de caráter social, contextual e processual. Diferenciar essas duas situações é fundamental para compreender os reais erros, excessos e acertos.

 
Consequentemente ao ponto anterior, é plausível imaginar que a mídias às vezes erra por que erra. Sem maiores explicações, sem grandes arroubos conspiratórios. Quando o Brasil acompanhou o caso da Escola Base, tão comentado e analisado nos bancos das universidades de jornalismo, os erros cometidos responderam a uma lógica política macro ou simplesmente o erro foi de ética? Ora, desvios éticos e morais existem em qualquer profissão, em qualquer tempo, em qualquer contexto social. Precisa estar, necessariamente, atrelado a um interesse político ou econômico? Portanto, é possível supor que falhas de cobertura política também podem ser somente falhas humanas. Porque dá um contorno de golpe em tudo?

 
Por fim, a crítica de mídia tende a ser protecionista. Esse é um problema, pois coloca o crítico em um patamar acima do cidadão comum – esse ser inanimado que sempre é cooptado pelo poder da mídia, não tem capacidade crítica alguma e consome informação midiática sem digeri-la. Erro que já foi vastamente debatido e derrubado em algumas teorias da comunicação, uma vez que todo indivíduo possui um vasto repertório informativo e tem, sim, capacidade de racionalizar o pensamento. Não é porque o pensamento ideológico é diferente do seu que essa pessoa é massa de manobra da mídia.