Os memes e suas implicações políticas

Um link compartilhado pelo blog do Grupo Ponte chama atenção para um fato “novo” em tempos de mídias sociais e rápido consumo de informação, os memes políticos. Na matéria em questão, a jornalista Isadora Peron explica de forma sucinta o que seriam os memes (se é que você já não sabe o que é isso): “termo usado para se referir a um conceito ou imagem que se espalha rapidamente no mundo virtual”. Mas o que isso quer dizer quando se trata de assuntos políticos?

Em época de eleição, muitos memes têm surgido. Até parece que existem pessoas a caça desses episódios pitorescos para logo transformá-los em anedota. Na matéria do Estadão, dois especialistas relegam os memes ao patamar da diversão, com pouca ou nenhuma implicação política. Concordo que é quase impossível medir a influência, no resultado de uma dada eleição, de uma charge com Serra dançando Gagnam Style. Assim como esse fato, outros tantos são incógnitos para especialistas: qual o impacto do uso de determinada cor de roupa em um debate? São fatores que agregam valor à campanha, seja do ponto de vista negativo seja por um viés positivo. E, ainda assim, é complicado estabelecer parâmetros exatos de avaliação.

Mas, a questão dos memes políticos não é essa. O ponto central – e que leva estudiosos a cada vez mais considerar espaços informais de discussão política e elementos de entretenimento como importantes vetores de envolvimento político por parte dos cidadãos – é entender que indivíduos estão usando outros meios para conversar sobre política. Esses indivíduos são os jovens, a maioria da internet, e esses “outros meios” estão em oposição aos modos tradicionais de fazer política. Não é comum ouvir dizer que os jovens de hoje não são politizados? Ora, o que é ser politizado? O que é ter interesse em política HOJE EM DIA? Como diz o professor Wilson, “o que não se pode é acomodar vinhos novos em odres velhos”.

O primeiro passo é compreender as possibilidades de expressão política que os jovens têm hoje em mãos. Eles têm em mãos ferramentas digitais, eles ficam horas/dia conectados, então, porque enxergar esse ambiente apenas com um olhar de soslaio? Naturalmente, essa visão não pode ser interpretada somente como um passo largo em direção ao caminho do puro entusiasmo, que tanto viciou as análises sobre internet e política nos anos 90. O rigor científico impõe certos limites naturais.

No caso dos memes políticos, é preciso avaliar a extensão de seu alcance. Como nos ensina a longa literatura em e-democracy, meios digitais podem se transformam em oportunidades politicamente relevantes. O que revela, por exemplo, a enxurrada de imagens humorísticas de Serra? O próprio perfil oficial do candidato adotou as piadas em sua página, demonstrando que alguma relevância aquilo deve ter. Porém, o mais importante disso tudo é que as pessoas estão “perdendo” seu tempo com temas políticos. Se, em outro exemplo, teve gente compartilhando a página “Vamos falar sobre São Paulo?”, é porque, mesmo em tom de brincadeira, o fato político gerado por uma entrevista de Celso Russomano teve relevância em certo ponto. Mesmo que seja para desdenhar do candidato, o que é, em larga escala, um ótimo reflexo do que uma parcela das pessoas pensam a respeito dele.

No geral, é preciso olhar com mais atenção para essas manifestações menos formais, pois elas revelam, em última instância, quatro elementos importantes do ponto de vista democrático. Primeiro, as pessoas estão espontaneamente compartilhando conteúdo político e discutindo a respeito, elementos chave para a democracia do ponto de vista da formação de uma esfera pública mais racional e informada sobre os assuntos de relevância pública. Segundo, o cidadão se posiciona politicamente ao compartilhar conteúdo dessa natureza, importante para criação de laços com outras pessoas e definição de aspectos formadores do seu próprio capital social. Terceiro, análises mais focais podem verificar se esses memes (ou qualquer outra manifestação informal) fortalecem a perspectiva concorrencial do cidadão em face a outros grupos de pressão. Por fim, revelam o mínimo interesse do cidadão em política, pois se assim não fosse, ele estaria compartilhando piadas sobre a orientação sexual de Justin Bieber.