Opressão de gênero e a crítica política

Por Rayza Sarmento*

“Balança que essa guenga cai”, diz uma faixa exibida no Recife, durante as manifestações do domingo, 13 de março de 2016. “Quenga” é uma expressão pejorativa para se referir à Presidenta da República Dilma Rousseff. Deslegitimar a presença feminina na política usando argumentos ofensivos à aparência, corpo e sexualidade tem sido prática recorrente nos recentes protestos brasileiros, mas esses discursos já circulam há muito mais tempo.

A ênfase na presença física feminina (“as musas do Congresso”) mais do que na atuação política, as expressões de estranhamento quando elas demonstram força ou firmeza em debates ou ações, e a citação frequente da forma como se vestem ou dos relacionamentos que travam não são apenas meras características da visibilidade pública de mulheres em cargos eletivos, mas a forma como historicamente diversos veículos de comunicação no plano nacional, e também fora do país, têm realizado a cobertura das mulheres na política.

As pesquisas sobre mulher, política e mídia, em diferentes contextos geográficos e políticos, têm chegado, infelizmente, a resultados bastante similares. Os trabalhos de Karen Ross no Reino Unido, Austrália e África do Sul (2002, 2006) mostram o quanto a expressão “política não é lugar de mulher” atravessa fronteiras quando se olham para os espaços de visibilidade. Antes de serem julgadas pelo cargo que ocupam, elas são “descritas como mulheres, o sexo sempre está em exibição e é o descritivo primário” (Ross e Sreberny, 2000, p.88, tradução nossa)”. Do mesmo modo, Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli (2011) ao olharem para o Brasil e Claudia Bucciferro (2012) ao pesquisar o contexto chileno, enfatizam o quanto os meios de comunicação têm contribuído para ratificar que essa dimensão do espaço público não deveria ser ocupada por elas.

O que se vê nos protestos é um perigoso aprofundamento desses estereótipos, que chega ao desrespeito e ao discurso de ódio. A crítica à gestão da presidenta Dilma Rousseff tem sido assolada por discursos machistas que tentam a todo o momento re-privatizar a experiência feminina, mostrando com expressões de misoginia qual seria o lugar reservado à ela, este sendo bem longe do sistema político formal. Dilma convive com essas expressões desde sua primeira campanha política, quando teve sua orientação sexual como objeto do debate público.

Esses discursos, além de serem diretamente ofensivos à chefe do Estado, têm implicações danosas para o processo democrático e para a maior inclusão de mulheres na política. Eles colaboram para a exclusão histórica do feminino dos espaços de poder e decisão, reafirmam a lógica machista estrutural que rege a política e têm consequências perversas para os horizontes em que meninas e mulheres constroem o que desejam ser. A crítica político-partidária não pode se converter, mais uma vez, em opressão de gênero.

Referências:

Bucciferro, Claudia. Chilean Women in Changing Times. In: ROSS, Karen. The Handbook of Gender, Sex, and Media. Blackwell Publishers, 2012, p. 20-34 .

MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flavia. Caleidoscópio convexo: mulheres, política e mídia. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

ROSS, Karen. Women, politics, media: unseasy relations in comparative perspectives. Hampton Press, 2002.

ROSS, Karen; BYERLY, Carolyn. Women and Media- International Perspectives, Blackwell Publishing, 2006.

ROSS, Karen. SREBERNY, Annabelle. Women in the House: media representation of British politicians. In: SREBERNY; Annabelle; VAN ZOONEN, Liesbet (orgs). Gender, politics and communication. Hampton Press, 2000, p. 79-99.

*Doutoranda e mestra em Ciência Política pela UFMG. Jornalista graduada pela UNAMA/Pará. Atualmente, em estágio doutoral sanduíche na Northumbria University / Newcastle-UK, sob a supervisão da professora Karen Ross. Estuda as relações entre feminismo/gênero, mídia e política.