O processo de midiatização dos conflitos

por Acácio Salvador

A atual cobertura da mídia da morte de Osama Bin Laden, e o que seria o fim de um ciclo de guerra contra o Afegão que chefiou a explosão do World Trade Center e matou milhares de norte-americanos em Nova York no ano 2001, nos chamou atenção pra pensar a origem dessa cobertura de conflito/guerra na história.

Na dimensão espaço-temporal, são longínquas as referências ao processo do midiatização[1] dos conflitos bélicos. A Ilíada de Homero[2], narra os acontecimentos ocorridos no período de pouco mais de 50 dias durante o décimo e último ano da guerra entre gregos e troianos. No Oriente, o mitológico Bhagavad Gita[3], parte do Mahabharata, relata o diálogo do deus Krishna com Arjuna, seu discípulo, em pleno campo de batalha entre as forças do Bem e do Mal. A própria Torah[4] ou Pentateuco é prolixa em relatos de grandes batalhas heróicas[5]. Dando um salto na história, no século XVI, um dos temas recorrente das baladas, uma espécie de protótipo do jornalismo moderno, eram as guerras e as rebeliões[6]. Já aqui, a preocupação com o novo, com o que era recente, com a narrativa que parecesse verdadeira eram características essenciais do formato.

Com o advento da fotografia no século XIX, tornou-se possível registrar não só relatos escritos, mas imagéticos dos conflitos. A Guerra da Criméia[7] (1853-1856) foi o primeiro conflito armado coberto por agências internacionais de notícias – Reuters e Havas –, a ter um corresponde de guerra[8] e fotógrafos[9] atuando na sua cobertura. Alguns anos mais tarde e do outro lado do planeta, Matthew Brady faria uma sucessão memorável de narrativas imagéticas sobre a Guerra Civil norte-americana[10] (1861-1865).

A medida em que se desenvolviam e melhoravam as tecnologias de registro da imagem, aumentavam também as possibilidades de criar representações dos conflitos. Porém, essa possibilidade de gerar imagens que estabeleciam uma referência ao mundo real, não impediu que senador norte-americano Hiram Johnson observasse em 1917 que “em tempos de guerra, a primeira a morrer é a verdade”. Seu país havia entrado no conflito mundial iniciado em 1914 e os jornais sofriam com o forte controle de informação. A exposição dos fatos verídicos jamais ganharia uma guerra, como bem aponta Gabriel Priolli em artigo publicado para o Observatório da Imprensa[11]. Os meios de comunicação de massa resumiam-se, então, à oralidade do rádio e à linearidade da imprensa escrita que imprimia também algumas imagens fotográficas. Uma situação diversa da contemporaneidade, que assistiu, a partir da Segunda Grande Guerra, a popularização da representação da imagem em movimento com o cinema, depois com a televisão e, mais tarde, com a complexa rede mundial de computadores de interações sociotécnicas.

Da teatralização dos fatos dos dois grandes conflitos mundiais do século passado aos mísseis riscando os ares dos céus de Bagdá, foram muitas as guerras. Algumas delas conseguiram romper o forte esquema de censura imposto pelas nações envolvidas. Antes de perderem a guerra para os vietcongues, os americanos a perderam para as imagens fotográficas e televisivas de seus soldados mortos em campos ermos de batalha. A questão é que a verdade é fugidia e inapreensível no processo de midiatização dos conflitos, já que o campo da investigação conhecido como guerra da informação (infowar) tem como um de seus fundamentos a disciplina do gerenciamento da percepção, sendo essencialmente o uso da informação para confundir, decepcionar, desorientar, desestabilizar e desbaratar uma população ou um exército adversário.

Se partíssemos somente desse pressuposto, a questão da verdade na representação de um conflito já estaria afastada do sistema significante de uma informação noticiosa, seja ela construída no formato de cine, tele ou ciberjornal. Porém, além desse eventual controle de informações, em um estado de guerra – ou em qualquer conflito social, como demarca Machado (2005) – todos os produtos noticiosos são, em uma certa medida, “mentirosos”. Se o produto é uma fotografia ou uma imagem em movimento denota somente um ponto de vista: o daquele que registra, que nunca é isento de interesses ou abrangente. No caso de um produto coletivo que intenta construir a sua versão dos fatos baseada nas informações coletadas por fontes pré-selecionadas (documentos, fontes oficiosas e personagens comuns), – um telejornal ou jornal impresso editado – o que ele consegue, contrapondo diversos pontos de vista, é relativizar ou mesmo neutralizar as várias versões. Em um jornal em “tempo real” – atualizado diversas vezes ao dia – inserido dentro das redes multimidiáticas, por outro lado, o fato tampouco está concluído para que dele se possa extrair algum sentido, sendo o resultado uma fragmentação e relativização da verdade ainda maior.

Seja qual for o formato do jornal e seja qual for à velocidade da transmissão da informação, ele se torna, na cobertura de guerra, em um dos fronts mais relevantes e onde se travam batalhas decisivas. Joseph Goebbels já o sabia na década de 30 do século passado. Na contemporaneidade, a prática midiatizada do terrorismo (vide o episódio do 11 de setembro de 2001) é uma das conseqüências dessa percepção de que a mídia é palco privilegiado de veiculação e divulgação de discursos e durante a primeira Guerra do Golfo, as câmeras da CNN não foram silenciadas – seja pelo governo iraquiano de Saddam Hussein, seja pelo governo norte-americano da época de George Bush – embora todos soubessem onde elas estavam posicionadas[12]. Ambos os lados pensavam em suas estratégias próprias de se beneficiarem por meio da veiculação de informações noticiosas; através da prática da midiatização dos fatos. E certamente nesse momento da cobertura da morte de Osama Bin Laden e a guerra contínua contra sua facção terrorista a  Al-Quaeda, não constituem exceção.

 


 

[1] Para Muniz Sodré, o processo de midiatização redere-se à tendência à virtualização ou televirtualização das relações humanas, “presente na articulação do múltiplo funcionamento institucional e de determinadas pautas individuais de conduta com as tecnologias da comunicação” (2002: 21). Já José Luiz Braga (2007) distingue dois âmbitos do que denomina mediatização.  O primeiro em que são tratados processos sociais específicos que passam a se desenvolver (inteira ou parcialmente, segundo as lógicas da mídia). O segundo, em um nível macro, trata-se da mediatização da própria sociedade, um tema que tem sido alvo de muitos debates na área da comunicação. O artigo propõe uma reflexão a partir de ambas as conceitualizações, já que ambas referem-se à midiatização como fruto de uma prática social.

[2] A Ilíada e a Odisséia são atribuídas a Homero que teria vivido por volta do século VII  da Era  Comum. São consideradas as mais antigas obras da literatura greco-ocidental. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Il%C3%ADada >.

[3] Em sânscrito, “os textos do Senhor”, é um texto religioso hindu. Representa a essência do pensamento védico (referente aos Vedas, uma civilização hindu-ariana) na Índia. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%A9dico >.

[4] Livro sagrado do judaísmo. Corresponde aos cinco primeiros livros da Bíblia cristã, em grego Pentateuco ou o Antigo Testamento.

[5] A conquista romana da antiga Judéia que culminou com a destruição da cidade de Massada; a revolta macabéia contra a dinastia pagã selêucida, dentre outras.

[6] Para Lennard J. Davis (1997) as baladas eram basicamente jornalísticas; seu propósito era o de informar. O que diferia a balada de outros tantos gêneros literários da época, era sua capacidade de reportar um passado recente, o recém-acontecido, graças ao advento da tecnologia da imprensa escrita.

[8] O primeiro correspondente de guerra foi o jornalista irlandês Willian Howard Russel.

[9] Um dos primeiros fotógrafos de guerra foi Roger Fenton que registrou imagens referentes à Guerra da Criméia. Uma de suas fotos mais conhecidas é a denominada Valley of the Shadow of Death que representa um campo após a batalha,  coberto por projéteis. Disponível em:< http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Valley_of_the_Shadow_of_Death.jpg >.

[11] PRIOLLI, Gabriel. Kosovo. Disponível em:< http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/aspas/ent200499a.htm >

[12] A equipe da emissora do canal de notícias “24 horas” CNN – Peter Arnett, Bernard Shaw e John Holliman – se hospedava no Al-Rashid Hotel de onde realizava e transmitia as suas reportagens.