Facebook quer mais notícias e menos ‘memes’: o que isso tem a ver com comunicação política

O Facebook anunciou esta semana que alterou o sistema de atualizações exibida nos feeds dos usuários. Se a lógica de funcionamento já era nebulosa – tanto quanto o google, com inúmeros e complexos aspectos a serem levados em conta -, agora parece que ganhou um novo alento. Mas só para alguns. A novidade é que a rede social focará mais em notícias e eventos em tempo real e menos em posts lúdicos. Isso significa que, na sua timeline, conteúdo noticioso (a.k.a. links de notícias) terá prioridade em detrimento de assuntos corriqueiros e humorísticos de seus amigos. Não que estes desaparecerão, mas estarão relegados a segundo plano.

No que tange à comunicação política, há algumas implicações importantes. Primeiramente, o noticiário político dos grandes portais ganhará mais espaço, uma vez que quanto mais ele aparece em destaque na sua timeline, mais as chances de você interagir com ele. E a partir daí é uma “cascata de interação”*. A própria lógica de funcionamento da rede social de Zuckberg já tem esse padrão e, portanto, a tendência agora é isso aumentar. Em eventos políticos de grande repercussão, os sites noticiosos ‘naturalmente’ ganham mais espaço entre os compartilhamentos, por ser fontes teoricamente confiáveis, por estarem mais facilmente “à mão” do usuário, dentre outros motivos**. O Facebook, portanto, assume isso em seu sistema de atualização e coloca a fonte oficial como fonte principal de notícia para o cidadão. Para a política, é mais conteúdo oficial circulando, menos fontes alternativas.

O bate papo e a política miúda, digamos assim, continuarão existindo normalmente – não há restrição alguma de publicação -, mas a circulação dessas informações estará mais restrita àqueles amigos que mais interagem com você. Isto é, as chances de um amigo seu, que pouco interage com você, ver esse conteúdo corriqueiro e do dia a dia é menor. Já é um pouco o que acontece hoje, mas o Facebook quer intensificar essa questão. Para a política, perde-se em interação justamente aquilo que é mais precioso nas redes sociais: interação entre amigos ou seguidores sobre conteúdo cotidiano da pessoa. E, a partir disso, criar relações baseadas em entretenimento, em música, em filmes, em temas de interesse mais específicos e, claro, em política. É o buraco da rua, a opinião contrário a determinada decisão governamental, a piada com uma figura política qualquer, dentre outros. Isso só terá um escopo de alcance grande se estiver atrelado a fontes oficiais de notícia, pois estes terão mais chances de alcançar mais pessoas.

Portanto, o que provavelmente ficará no fim disso tudo é que as notícias de portais estarão no centro da rede social, estando as conversas informais e discussões entre amigos por trás, numa segunda camada, digamos. Teremos uma noção mais clara das notícias que mais repercutem e que, de algum modo, refletem os temas da agenda de discussão pública. Mas pouco se poderá avaliar do que realmente o público está discutindo a respeito desses assuntos, a não ser em posts provenientes dessas notícias oficiais.

Uma questão final. Pelo que li em muitos blogs que tratam do assunto, essa é uma tentativa do Facebook se aproximar da atual lógica de circulação de informação do Twitter. Tentou-se há alguns meses a introdução das hashtags, que se mostrou um fracasso retumbante. Agora, para alcançar a ideia da indexação, tenta-se atacar diretamente as timelines. Veremos.

 

* Um post feito por Alex Dow, do Facebook, explica essa questão: https://www.facebook.com/notes/facebook-data-science/the-anatomy-of-large-facebook-cascades/10151549884868859. Tem um artigo mais extenso que detalha melhor, com mesmo título. É só dá uma googlada

** Para mais sobre esse assunto: http://www.labic.net/sem-categoria/imprensa-nas-redes-sociais-autoridade-sem-centralidade/