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A mídia golpista e o momento brasileiro

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Lula é levado coercitivamente para depor na polícia federal (PF), pedido de prisão preventiva do Ministério Público (MP) de SP, Delação de Delcídio do Amaral envolve algumas dúzias de políticos (incluindo Dilma, Lula e Aécio). Todos podem ser caracterizados como escândalos midiáticos. Como brincam as redes sociais, a política brasileira se tornou uma mistura de “House of Cards” com “Game of Thrones”. Ou seja, uma serialização da política. Liga-se a TV ou se acompanha a internet para ver o próximo capítulo da vida política, que envolve necessariamente um escândalo.

Diante disso, surgem várias reclamações e afirmações sobre a mídia golpista ou ainda sobre o PIG, o “Partido da Imprensa Golpista”. Esta teoria, em resumo, afirma que a imprensa age de forma conjunta, coordenada, de maneira similar a um partido, e age contra o ex-presidente Lula, contra a presidente Dilma e contra o PT no geral. Tratar-se-ia de uma imprensa conservadora e ressentida das políticas sociais do PT no poder.

midiabueguesa

O tipo de pensamento que trata a mídia como golpista é baseado, essencialmente, em dois modelos há muito visitados na Comunicação política (para mais, sugiro o livro do Wilson Gomes). Explico rapidamente os dois.

1) A política dominante: nessa visão, muitas vezes acionada implicitamente nos comentários políticos, teríamos a visão de uma mídia dominada pela ação política. Os media são menos considerados como atores com força de negociação e com interesses próprios e capacidade de mediar a mensagem política. São apenas “meios” de comunicação. Isso pode acontecer mais frequentemente em governos autocráticos, mas pode acontecer, também, por um alinhamento entre pensamento político ou mesmo por uma dependência das empresas midiáticas de ações do campo político.

Nesta visão, a mídia é golpista por não resistir ao sistema político da maneira que deveria. Há uma perda da legitimidade do jornalismo que acaba sendo obrigado a obedecer a outros poderes, nomeadamente o poder político e econômico. Logo, os interesses dos agentes que detêm as empresas jornalísticas se colocariam à frente das regras e valores que regem as ações do jornalismo.

2) A mídia dominante: nesta visão, os media assumem uma posição superior, possuindo grande capacidade de influenciar as ações do sistema político formal. No lado positivo, a mídia e, especialmente, o jornalismo teriam adquirido grande legitimidade em regimes democráticos, pois seriam espécies de cães da guardas da cidadania, mantendo um olhar atento às ações e aos malfeitos realizados por agentes políticos. No lado negativo, como os agentes midiáticos detêm o poder de decidir a agenda midiática e a maneira como determinado evento ou assunto será enquadrado, isso daria enorme poder de influência,  manipulação e  barganha aos agentes midiáticos.

Aqui, a tese do PIG seria fartamente citada de maneira explícita. Pelos seus próprios interesses (e de seus donos), os agentes midiáticos estariam frequentemente enfrentando e cercando as ações dos atores políticos. No caso brasileiro, haveria uma especial união contra agentes de esquerda, em especial o PT.

Diferentemente de uma posição intermediária e consolidatória, afirmo que ambas devem ser consideradas no momento.

Na primeira tese, é facilmente questionável como o jornalismo tem frequentemente agido como meio e não como o agente de mediação que esperamos. Isso tem acontecido, especialmente, no que tange as divulgações e ações ligadas à operação “Lava Jato”. Em outras palavras, as investigações têm recebido ampla divulgação midiática, o que é esperado (e desejável), porém falta maior questionamento às ações dos investigadores e às consequências da investigação. Há ampla divulgação de conteúdos de delações, vazamentos e investigações, porém as outras funções esperadas do jornalismo, como a tradução e a mediação dos acontecimentos, parecem não atingir um nível mínimo de reflexão.  O país se encontra em uma polarização política gigantesca, mas nada parece limitar a ação dos agentes midiáticos.

Ontem (16 de março), por exemplo, foi liberado o sigilo das investigações da Lava Jato sobre o ex-presidente Lula, o que inclui um grampo do telefone do presidente. Em especial, é possível destacar o conteúdo da  conversa entre a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Enquanto, de fato, o conteúdo desta ligação soa como alarmante, definitivamente, a sua liberação e a forma como foi conduzida pelo juiz Sérgio Moro é muito mais aterradora. O juiz já sabia que parte das gravações do ex-presidente Lula envolviam indivíduos com foro privilegiado, incluindo ministros de Estado e a chefe maior do Estado. Não se trata de liberar, simplesmente, o sigilo sobre investigação. Como isso ocorreu exatamente quando se anuncia que Lula se tornará um ministro, torna-se cristalina a intenção política e não jurídica de partes do judiciário e da polícia federal.

Neste momento, vemos um jornalismo atônito no meio de tantos vazamentos, tantos acontecimentos, que parece se preocupar mais em decupar as escutas telefônicas e fazer uma matéria para cada gravação, para cada declaração espetacular. A repercussão ainda parece muito maior na ida de Lula para um ministério. As reflexões hoje recaem sobre o fim político ou não do mandato de Lula. Muito pouco sobre as consequências do estado policial que vivenciamos. Pouco se questiona sobre a possibilidade da polícia ou do jurídico estarem sendo partidários, inclusive mais que a própria mídia, diga-se de passagem. É o jornalismo mais tolo e que menos necessitamos em um momento tão extremo. Faltam ser realizadas as perguntas para além da pauta óbvia.

Na segunda tese, vemos um jornalismo excessivamente interessado na perseguição do presidente Lula e do PT de forma geral. No geral, os integrantes do blog Comunicação e Política não aderem à tese do PIG. Em momentos recentes, alguns membros dissertaram sobre a normalidade e desejabilidade de termos políticos sob os olhares atentos dos media. Também há uma reflexão sobre a necessidade de uma crítica menos apaixonada das ações do jornalismo, entre outros. Uma leitura alternativa ao PIG apenas avalia que o jornalismo construiu seu discurso de autolegitimação como o tal cão de guarda. Atacar e acuar políticos seriam as suas funções primordiais. O fato de serem agentes do PT, então, justificar-se-ia por representarem a força política dominante na última década. Derrubar os maiores representantes desse grupo politico seria, portanto, uma vitória do jornalismo.

Entretanto, a situação está extrema. É preciso fazer distinções.  Eu não acredito na tese do PIG em si e ainda prefiro ter uma visão mais otimista (e talvez ingênua) da ação jornalística e de sua importância num regime democrático. Porém, parece-me muito claro que a ação jornalística de vários meios está sendo equivocada e bastante temerária.

Portanto, refiro-me menos à espetacularização da política e da ação do judiciário, que já são partes do jogo, mas sim à falta de critérios para uma avaliação mais equilibrada e reflexiva dos acontecimentos, que, constantemente, apresenta uma cobertura negativa apenas aos atores ligados ao atual governo, enquanto ignora ou não amplia a repercussão de outros atores de oposição.  Seja por interesses escusos e relacionados aos donos de empresas midiáticas (tese do PIG) ou seja, simplesmente, pela inépcia dos agentes do jornalismo de perceber e avaliar a conjuntura dos acontecimentos e as consequências de tal cobertura, o jornalismo parece incapaz de perceber o estado policial que está se formando. Um estado de vigilância e de super poderes a todos que querem combater a corrupção, no qual pedidos preventivos de prisão são válidos, mesmo que não haja provas e vale vazar áudios que envolvam presidentes sem seguir os trâmites democráticos adequados. Como dito acima, faltam ser realizadas as perguntas para além da pauta básica. Neste caso em específico, qual era a necessidade de se grampear o ex-presidente? Qual era  a necessidade de abrir o sigilo das investigações? Por que o sigilo foi aberto no mesmo dia do anúncio do ex-presidente como ministro? Portanto, quais os limites das ações do judiciário e da polícia federal? Entre tantas outras perguntas muito mais pregnantes que a repercussão dos palavrões de Lula.

Um golpe não precisa envolver, inicialmente, a ação de militares e a queda abrupta da chefe de Estado. Podemos estar lentamente sofrendo um golpe no estado democrático de Direito e acordar qualquer dia num regime policial em que tudo pode ser justificado por um teórico bem maior, para nos salvar das convulsões sociais, para garantir o bem estar dos cidadãos.  Nossos agentes midiáticos, tão certos de serem os cães da guarda da cidadania, parecem assistir a isso atônitos.

Portanto, para mim, a mídia é golpista ao não alertar (ou não perceber) o golpe.

Devemos lembrá-los disso. Golpe não.

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Rafael Sampaio
Rafael Sampaio é jornalista formado pela UFJF, especialista em Comunicação e Política pelo Uni-BH e mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA. Atualmente, está realizando estágio doutoral no grupo de pesquisa em Mídia e Esfera Pública (EME) e é pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Governo Eletrônico e Democracia Digital (CEADD-UFBA). Pesquisa na área de internet e política, com foco em programas digitais de participação política civil e experimentos de deliberação online. Além de política, é fissionado em quadrinhos, RPG, cinema, séries de TV (Big Bang Theory, Game of Thrones) e coisas geek em geral.

2 COMENTÁRIOS

  1. Interessante o conceito de que enquanto forem os “outros” no governo, seria justo emparedá-los em prol do bom jornalismo.
    Também achei interessante a ideia da nova modalidade de golpe, sem necessidade de forças armadas. Não foi o mesmo que fizeram na Ucrânia?

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