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A mídia deixou de ser golpista? Sobre os recentes editoriais de Folha de S. Paulo e de O Globo

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Uma das teorias sobre o comportamento da “mídia” brasileira que costuma circular com frequência na internet e em outros espaços é a do PIG (Partido da Imprensa Golpista). Em linhas gerais, ela afirma que os grandes jornais e emissoras brasileiras estariam sempre enviesando a cobertura contra o Partido dos Trabalhadores, visando a retomada do poder pelo PSDB. Para além dos problemas com a ideia de as empresas de jornalismo serem somente instrumentos de partidos políticos, como argumentar que a mídia é golpista quando, em um momento crítico do governo, dois dos jornais acusados de compor o PIG publicam editoriais em favor do mandato de Dilma Rousseff?

Em primeiro lugar, a crítica à ideia do PIG não significa desconsiderar os interesses dos jornais, revistas e emissoras de televisão e rádio, nem acreditar que elas não tenham preferências partidárias ou por certos agentes políticos. Apesar destas predileções, por que Folha de S. Paulo e O Globo não endossaram os pedidos por impeachment de Dilma, por novas eleições ou apoiaram Eduardo Cunha em suas retaliações ao governo?

Na última semana, Folha e O Globo publicaram editoriais (conferir ao final do texto) nos quais não poupam Dilma e o governo de críticas, mas posicionam-se abertamente contra o comportamento de Eduardo Cunha em aprovar as chamadas “pautas-bomba” ou utilizar a possibilidade de abrir um processo de impeachment como forma de retaliar o governo por ser investigado na Operação Lava Jato.

Ao ler os textos, percebe-se uma preocupação prioritária com a crise econômica e com seus efeitos para o Brasil. Para os jornais, mesmo que Dilma seja vista como responsável pela situação atual da economia brasileira, não há vantagem em aprofundar a crise econômica, ao gerar grandes turbulências no cenário político, apenas para desgastá-la. A agenda proposta por Cunha se mostra tão prejudicial – e com objetivo de retirar o foco das acusações contra o deputado na Operação Lava Jato –, que os periódicos se opõem a ela.

Sobre o rechaço às alternativas como impeachment de Dilma ou a convocação de novas eleições, minha hipótese é de que os jornais optam pelo caminho que confere mais estabilidade ao país. Diante da ausência de provas concretas envolvendo a presidente no esquema de corrupção da Petrobras e sem a reprovação de suas contas pelo Tribunal de Contas da União (TCU), não há maneira legal de destituí-la do cargo – menos ainda, de convocar novas eleições. Os jornais não fazem a defesa de Dilma. É de seu mandato. Para os periódicos, é mais vantajoso aguentar um governo do qual desgostam por mais três anos que arriscar uma turbulência política mais grave, correndo o risco de que figuras como Eduardo Cunha – que já se mostrou capaz de contrariar as regras quando crê ser necessário – ganhem ainda mais espaço. Além disso, se não há provas concretas para o indiciamento de Dilma, também não é razoável a nova eleição defendida por parte da oposição, por mais que os jornais possam identificar-se com os partidos que a compõem.

O fato de O Globo e Folha apoiarem a manutenção do mandato de Dilma não significa que passaram a endossar a presidente ou que se aproximaram do Partido dos Trabalhadores. O apoio é às regras da democracia, as quais, se desrespeitadas, podem trazer prejuízos bem maiores ao país dos que os vistos atualmente. Diante do descontrole da base aliada, do comportamento – em muitos momentos – irresponsável da Câmara dos Deputados e da fraqueza do governo, é bom que instituições de credibilidade como os jornais se manifestem em favor das regras do jogo, até para deixar claro que as opções mais extremadas podem não ser tão populares quanto seus defensores creem – ou gostam de fazer crer.

Editoriais aos quais o texto faz referência:

Ainda à deriva – Folha de S. Paulo

Papéis trocados – Folha de S. Paulo

Desconcerto – Folha de S. Paulo

Poço sem fundo – Folha de S. Paulo

Vácuo de legitimidade – Folha de S. Paulo

Passado à vista – Folha de S. Paulo

Manipulação do Congresso ultrapassa limites – O Globo

Para não parecer que os jornais são todos iguais, há um editorial no qual O Estado de S. Paulo considera o impeachment uma opção legítima: Um apelo à unidade nacional

Camila Mont'Alverne
Camila Mont'Alverne é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE).

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