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A aproximação das pesquisas de Comunicação e Ciência Política no Brasil: um encontro frutífero?

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A atual conjuntura político-midiática do país é um objeto de pesquisa complexo, que necessita de recursos de investigação de cada área ligada a essas instituições. Isso porque a inevitável intersecção entre os campos político e jornalístico sugere relações de poder, assim como uma estrutura própria, sustentada por aquelas originais de cada um desses setores, de compreensão pouco intuitiva.

Tendo essa necessidade sido percebida a partir do desenvolvimento de pesquisas, há quase uma década (novembro de 2006) era realizado o primeiro encontro de pesquisadores em Comunicação e Política, no Brasil. Àquela época, o congresso partiu da iniciativa de professores da área de Comunicação, domínio ao qual pertenceu a maioria dos trabalhos: dentre os 45 apresentados e publicados nos anais, 71% foram provenientes dessa área, enquanto apenas 9% vieram da Ciência Política, igualmente 9% de programas de Ciências Sociais e, por fim, 11% papers de pesquisadores de formação mista em duas ou mais áreas ou da reunião de um pesquisador de, pelo menos, duas delas. A realização desse evento foi um passo importante para as pesquisas no Brasil, uma vez que certa visão “ingênua” existente em ambos os (extremos) lados foi dissipada, dando espaço a investigações mais completas, que consideram os vários espectros da interface entre os campos politico e midiático.

 

Gráfico 1 – Número de trabalhos em 2006, por área

gráfico 1_abril

N = 45

O que essa aproximação gerou foi, primeiramente, o estabelecimento de grupos de trabalho dentro dos maiores eventos do país das três áreas reunidas em 2006: ANPOCS (que tem contado com dois GTs ligados ao novo campo), ABCP e COMPÓS. Em segundo lugar, a ampliação de parcerias, tanto entre grupos de pesquisa quanto entre pesquisadores independentemente em projetos, especialmente aqueles ligados à relação entre internet e política, como apontado por Sampaio, Bragatto e Nicolás (2016, no prelo), ainda mais ligados à área de Comunicação.

Hoje, tem-se a associação de pesquisadores desse campo interdisciplinar, a Compolítica, que conta com mais de 100 filiados, em cujos currículos pode-se encontrar um equilíbrio maior em relação a suas formações que naquele primeiro encontro, em 2006. O evento, que leva agora o nome da associação, já está em sua sexta edição. Em sua última realização, contou com 90 trabalhos, 52,2% provenientes de pesquisadores da Comunicação, 17,8% de Ciência Política, 12,2% de Ciências Sociais, 10% interdisciplinares, 2,2% de Linguística e 5,6% de outras áreas do conhecimento. Embora em números absolutos os trabalhos de Comunicação ainda predominem, percebe-se uma redução da disparidade entre as áreas no evento. É importante observar, por outro lado, que não houve aumento significativo em números absolutos, como se pode ver no gráfico 2, de trabalhos interdisciplinares; pelo contrário, sua redução proporcional é um fator ainda preocupante, pois pode indicar que cada área acredite que o contato com os trabalhos umas das outras, por meio de leituras e rápidos debates em eventos, já seria suficiente para estabelecer suas pesquisas isoladamente, baseadas, portanto, em pouca troca aprofundada de experiências.

 

Gráfico 2 – Número de trabalhos em 2015, por área

gráfico 2_abril  N = 90

Apesar de ainda precisar de muito exercício, contudo, o diálogo travado no Brasil foi importante e está em estágio avançado em relação mesmo a alguns países europeus, p.ex., em que a área de politica ainda se fecha a pesquisas de cariz comunicacional sobre fenômenos políticos e orientadores ainda alertam seus pupilos sobre a área a que pertence sua tese. Uma prova dessa evolução é que alguns departamentos já elaboram editais de concursos para a área de Comunicação e Política, ofertando vagas que podem ser pleiteadas por doutores de ambas as origens, o que considera a realidade de muitos pós-graduandos que já aderiram a um currículo interdisciplinar, que compreenda seus objetos e investigações, e aponta para a tão almejada consolidação do campo.

Isabele Mitozo
Isabele Mitozo é mestre em Comunicação e graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atualmente, é doutoranda em Ciência Política pela UFPR. É integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE/UFC)e do Núcleo de Pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP/UFPR), estuda iniciativas de participação política em plataformas online, mas, vez por outra, desconecta-se para compartilhar seu francês, ouvir um velho rock ‘n roll, ver um bom filme ou jogo do SPFC, e refugiar-se em uma ‘wonderland’ literária.

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